Maurício de Paiva

Maurício é um fotógrafo documentarista paulistano que pesquisa na bacia Amazônica há doze anos. Seus ensaios apresentam o modo de vida das populações tradicionais, com ênfase na arqueologia pré-cabralina, através do registro do entorno de sítios arqueológicos. É colaborador regular da National Geographic Brasil, com mais de uma dezena de reportagens publicadas. 

Conheci Maurício em 2004, quando era Diretora de Arte da National e fiz a edição de fotos e o layout da sua primeira reportagem fotográfica para a revista. Seu estilo narrativo único alia o rigor da informação científica, obtido através do acompanhamento do trabalho de pesquisadores (arqueólogos, antropólogos, biólogos, etnólogos, etc.), ao registro íntimo do cotidiano das populações ribeirinhas, em imagens cuidadosamente elaboradas. 

Assim, aceitei com prazer seu convite para ajudar a produzir uma exposição no Sesc Itaquera, em São Paulo, fazendo a edição das imagens, o design expográfico e do catálogo. A exibição seria baseado no livro Futebol na Amazônia – Imagem e Alarido, no qual Maurício documenta o futelama, futebol jogado em vilarejos da Amazônia Atlântica na vazante das marés. 

Com mais de uma centena de prints de seu acervo em mãos, buscamos subtemas representativos do corpo de trabalho do fotógrafo: sítios arqueológicos do Acre com geoglifos que remetem ao campo de futebol; a história recente das fábricas abandonadas no fim do ciclo da borracha (da qual é feita a bola); o movimento do corpo/esporte no cotidiano dos pescadores. Dentro de cada tema agrupamos as imagens em dípticos e quadrípticos, tendo como elementos unificadores a cor – característica marcante do trabalho do fotógrafo – e as ações dos personagens.

Definidas as 31 imagens integrantes da exibição, me dediquei ao design do título e das paredes. Escolhi uma fonte tipográfica serifada e pesada, que remete aos números da camisa de jogadores de futebol. O recurso de aplicar frases nas paredes vem da experiência do design em revistas e reforça o conceito de um grupo de imagens, trazendo outro nível de entendimento. 

A exposição Alaridos - jogo dos elementos ficou em cartaz de janeiro a maio de 2015 e teve grande repercussão.

Abaixo Maurício gentilmente compartilha sua visão sobre nossa parceria profissional:

“A experiência antiga de trabalho com a Cristina Veit sempre foi marcada pela (in) certa formalidade relacional em ambientes de redações editoriais. No caso especial de National Geographic Brasil eu ia entusiasta, pós viagens, impulsionado no caminho por uma espécie de rito, evidenciar e mostrar a ela os meus filhos slides / cromos da fotografia analógica, debaixo do braço, montados coloridamente, até mais ou menos 2009. Hoje percebo uma nostalgia desse tempo, como deja - vú, um espaço em dois tempos da percepção ou o tempo em espaços: uma harmonia que passou como fôlego.  Mas já havia, creio, algo no ar da esfera de outras imagens, vindouras, à espera.

Fazer a parceria para montar a exposição no SESC - SP  foi um rico processo criativo. Eu acredito no trabalho em conjunto, creio na reflexão das ideias em dupla ou mais, já que o ato fotográfico é bem solitário. Em nossas inúmeras trocas virtuais, no início, antes de dar contato com as imagens em papel para as escolhas e etc., Cristina comentou algo à coodenadoria, que eu de soslaio li:" É um prazer trabalhar com as imagens do Maurício". Isso deu me trejeito de ambição na dupla e mostrou a sua abertura profissional. É bom idealizar e realizar um projeto de conteúdo amazônico - estético com alguém que, de algum modo, tem soltura e conhece o olhar do (deste) fotógrafo há algum tempo neste cenário, isso criou mais sinergia, contiguidade entre nós. Cristina de fato tem uns "olhos de lince". Nos acalma sem letargia, dá tecitura. Convalesce. Sintetiza. O fotógrafo historiador - curador americano, John Szarkovwsky, disse que ' A fotografia é um sistema de edição visual. No fundo, é uma questão de cercar com moldura uma parcela do cone de visão (...)', e diz ainda que, na fotografia,  'é uma questão de escolher as possibilidades dadas'... de modo finito. Acho que a Cristina Veit ajudou -me a sacar outros tons que puderam ir além da fronteira, infinita ou não não sei, mas que por vezes nos nubla os olhos.”   

Veja o artigo sobre a exposição no site da National Geographic Brasil. 

 

João Castellano

Meu primeiro contato com João Castellano se deu através do grande amigo e fotógrafo Victor Moriyama. Victor achou que eu gostaria de conhecer o Sou Farofa, projeto pessoal que João vinha produzindo há quatro anos, a partir de uma pauta feita para a revista IstoÉ, onde trabalha. Victor estava certo: à medida em que as prints mostrando cenas de frequentadores de praias populares iam sendo dispostas na mesa do restaurante onde estávamos, ecoava na minha cabeça uma conversa que eu tivera uns dias antes com um dos mestres da fotografia documental, o britânico Martin Parr. 

Durante uma palestra em São Paulo, Martin Parr provocou indagando por que tão pouca gente documentava a vida cotidiana do Brasil contemporâneo. Por que a tendência em se investigar temas tradicionais do fotojornalismo dos anos 1960/1970 – questões indígenas, pobreza, violência – ou a escolha por enfoques conceituais, em busca do mais rentável mercado da foto arte? Não estaríamos perdendo a chance de mostrar o Brasil real? Quem teria documentado a ascensão da nova classe média brasileira e quem estaria acompanhando suas dificuldades perante a crise econômica? Como é o dia-a-dia do brasileiro comum, morador das grandes cidades? O que ele faz nos seu momentos de lazer?

Algumas dessas respostas estavam ali na minha frente, nesse trabalho que apresenta a desigualdade social do país de maneira original e excitante. As composições elaboradas por João, com muitas camadas de informação, emanam energia e vibração e são acentuadas pelo uso do flash e das cores saturadas. Mas o que impressiona mesmo é a intimidade que ele consegue com seus retratados. É raro ver pessoas tão à vontade diante de um fotógrafo. Tudo isso, descobri, é um reflexo da personalidade do João, da empatia que estabelece com as pessoas, e do tempo passado entre eles – literalmente um dia na praia. 

Se eu estava entusiasmada com o que via, João, por sua vez, queria ajuda. Ele não tinha certeza se o trabalho já estava pronto. Planejava passar um mês no Recife, documentando Brasília Teimosa – que se juntaria ao corpo de trabalho com cenas na represa de Guarapiranga, em São Paulo, e no piscinão de Ramos, no Rio. Concordei que a última etapa era necessária e, um mês depois dessa viagem, fizemos a edição final para ser apresentada no seu site profissional. 

João também enviou a edição final para a revista eletrônica Burn, curada pelo fotógrafo da Magnum David Alan Harvey,  com quem havia feito um workshop no passado. Algum tempo depois Sou Farofa foi publicado na Burn, e daí ganhou o mundo, tendo aparecido em publicações na China, Alemanha, Estados Unidos, entre outros.

Veja Sou Farofa na revista Burn

 

Djan Chu

Djan Chu é um fotógrafo paulistano que atua principalmente na área de fotografia de arquitetura, além de desenvolver projetos autorais e pesquisas. Tem trabalhos publicados em vários livros, revistas e sites nacionais e internacionais, tais como National Geographic Brasil, Wallpaper, Arquitetura& Construção, Casa Vogue, Bamboo, Interior Design, ArchDaily.

Em uma viagem de férias a Portugal, Djan produziu uma série de fotos de fachadas de comércios e de casas particulares que evidencia os elementos arquitetônicos e decorativos da cultura portuguesa. O conjunto de imagens, feito sem nenhuma intenção profissional, rendeu um ensaio despretensioso, elegante e rico.

No fim de 2015 eu participei de uma edição da Feira Cavalete em São Paulo, um evento para fotógrafos, galeristas e artistas exporem e venderem trabalhos sob forma de prints fine art, livros, acessórios, etc. Além de oferecer séries de ampliações de trabalhos em andamento, tive a ideia de reunir o trabalho de Djan em um livro de autor com produção independente e pequena tiragem. 

Impresso numa gráfica rápida de alta qualidade, o livro Museuzinho ganhou forma de um objeto de arte cult muito simpático e estimulante, que se integra ao universo de publicações independentes em alta no Brasil e no mundo. As 32 cópias numeradas e assinadas fizeram bastante sucesso na feira.

Marcio Pimenta

 

Marcio Pimenta é um fotógrafo documentarista baseado em Curitiba. Trabalha para jornais e revistas nacionais e internacionais como The Guardian, Rolling Stone, El País, National Geographic Brasil, entre outros. 

Em 2015 eu estava preparando uma edição especial sobre a crise hídrica no Brasil para a revista National Geographic e Marcio enviou uma reportagem que havia produzido por conta própria na cidade paulista de Ilha Solteira. Projetada em torno de uma usina hidrelétrica, Ilha Solteira teve suas atividades econômicas afetadas pela estiagem mais grave do sudeste do Brasil entre 2014 e 2015. Marcio Pimenta havia feito um excelente trabalho de pesquisa, e documentou em fotos e texto variados aspectos da vida da cidade, numa narrativa pronta para fazer parte da edição. Esta reportagem marcou sua estréia na National Geographic Brasil e tivemos aí o início de uma ótima sintonia de linguagem para narrativas poderosas. Exatamente um ano depois, a reportagem cujo título é “O fim da abundância”, recebeu o Prêmio Petrobras de Jornalismo na categoria nacional.

Quando Marcio propôs outra pauta para a revista, pediu minha ajuda na elaboração do roteiro fotográfico. O tema que ele imaginou dessa vez foi a produção de charutos na Bahia. Marcio cresceu no Recôncavo Baiano e tinha familiaridade com a história e facilidade de acesso aos locais. Mais uma vez ele mergulhou em meses de estudos sobre documentos históricos e entrevistas. Com uma primeira pesquisa sobre a história da indústria de charutos em mãos,  criei um roteiro fotográfico com locais e situações a serem documentados. Também preparei um arquivo com referências de imagens para orientar o fotógrafo. A reportagem foi publicada na edição de maio de 2016 da NG Brasil. O roteiro que preparei ajudou a colocar nos arquivos um importante capítulo da história do país que até então havia sido pouco pesquisado.

Marcio teve a gentileza de dar um depoimento sobre nossa relação de trabalho:

“Quando o editor da National Geographic Brasil, Ronaldo Ribeiro, me ligou para avisar que minha reportagem sobre a crise hídrica havia sido aprovada para publicação, ele me informou que a editora de fotografia e designer iria me escrever para falarmos das escolhas das fotos. Então eu e a Cris Veit começamos a trocar e-mails e logo percebi que nossos diálogos fluíam com facilidade. Em uma visita a São Paulo, a Cris me recebeu em sua casa e discutimos sobre meus trabalhos anteriores e idéias futuras. Tivemos uma conexão imediata. A sinceridade e seriedade somadas a sua delicadeza ímpar me deram confiança para que eu pudesse mergulhar mais a fundo nas propostas que eu iria produzir dali pra frente. Hoje, continuo produzindo de forma independente, mas é a Cris Veit a primeira pessoa a quem procuro para discutir as pautas que escolhi e também a primeira a ver as histórias visuais que produzi antes que elas cheguem aos jornais e revistas. A Cris, tornou-se também um grande amiga.” 

Veja a matéria publicada no site da National Geographic Brasil